Torcidas organizadas: espetáculo X violência

A professora Tarcyanie Cajueiro dos Santos se apaixonou pelas torcidas organizadas e resolveu estudá-las

Torcidas organizadas:
espetáculo X violência
Estudiosos resolvem usar as torcidas organizadas como
tema para pesquisas científicas

Marcelo Gomes

O futebol é uma das maiores paixões dos brasileiros e o esporte mais popular do país. Além do jogo, o que chama a atenção de algumas pessoas são as torcidas organizadas. Como é o caso da professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba Tarcyanie Cajueiro dos Santos, que fez uma pesquisa científica intitulada “Dos Espetáculos de Massa às Torcidas Organizadas: paixão, rito e magia no futebol” para o Mestrado em Ciências da Comunicação.
Ela, juntamente com o professor Felipe Tavares Paes Lopes, participaram de uma palestra na Uniso no dia 08 de maio deste ano para apresentar, novamente, suas pesquisas para alunos e professores da Instituição.
Tarcyanie conta que tinha terminado a graduação e estava à procura de um tema para estudo e um dia quando viu a festa que a torcida fazia na arquibancada, se apaixonou. “Naquela época os torcedores podiam ir com suas bandeiras, seus instrumentos, baterias, então era uma festa e aquilo me impressionou muito”.
A ideia inicial, segundo a pesquisadora, era trabalhar com torcedores de maneira geral, mas quando ela começou a fazer observação direta dos estádios, dos arredores, das torcidas, ela percebeu que as torcidas organizadas poderiam ser um exemplo de como as torcidas se estruturavam dentro dos estádios, emblemas das configurações que estavam surgindo no local dos jogos.
Para fazer seu trabalho, ela teve que enfrentar algumas situações difíceis. “Na época que eu estava estudando, foi o momento que as pessoas estavam aparecendo na mídia como violentas”, relata Tarcyanie. “No primeiro momento houve a questão do medo, porque é uma prática fronteirista, tive que ir com eles nos ônibus fretados, tive que participar com eles dos deslocamentos...”, diz.
As duas organizações que serviram de estudo para a pesquisa, concluída em 1998, foram a Mancha Verde e a Gaviões da Fiel. “A primeira já tinha um certo grau de agressividade, eles não gostavam muito de jornalistas, de pesquisadores. Por outro lado, a dos gaviões, como não era clandestina, estava em plena atividade, já fez todo um momento de acolhimento para mostrar que ali não é só lugar de gente violenta, que tinha outras práticas de sociabilidade que são exercidas”, comenta a professora.
As torcidas organizadas surgiram no final da década de 60, início de 70, movidas por diversos motivos. Em alguns casos, como massa de manobras dos próprios clubes, em outros, como a torcida da Gaviões da Fiel, que foi criada na época da ditadura, como uma tentativa de as torcidas lutarem contra o que tinha de errado nos clubes, adotando uma postura mais democrática.
De acordo com Tarcyanie, as torcidas organizadas são importantes porque elas acabam problematizando o que vivemos na sociedade como um todo, assim conseguimos ver um microcosmo da sociedade brasileira. “Tanto do ponto de vista de como se dão essas redes de sociabilidade no Brasil, como se estabelecem as relações de amizade de relacionamento e como também essa violência aparece, eu acho que são diversos aspectos que estão dentro da torcida”.
Em relação à violência atribuída às torcidas organizadas pela mídia, ela diz: “eu acho que a mídia em maneira geral tem uma visão muito de fora, então ela olha para a violência, mas a visão dela é muito deturpada. Não que não exista a violência, mas essa forma como ela acontece, acho que é muito descontextualizado midiaticamente”, finaliza Tarcyanie.


Violência

Felipe Tavares Paes Lopes, também professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba, é apaixonado por futebol e já vivenciou situações de tensão e violência em estádios. E por achar que existia uma supervalorização discursiva da imprensa sobre o assunto, achou interessante estudar o tema, e em 2012 concluiu sua pesquisa de doutorado em Psicologia Social com o tema “Discursos sobre violência envolvendo torcedores de futebol: ideologia e crítica na construção de um problema social”.
“Do ponto de vista acadêmico, eu foquei o meu olhar sobre o debate público sobre o assunto, mais especificamente como esse problema social tem sido simbolicamente construído. Por uma razão de identificar uma lacuna na literatura sobre o assunto”, diz Felipe.
Sobre o processo de desenvolvimento, ele conta que foi muito interessante. “Eu me debrucei sobre dois tipos de matérias. O primeiro deles, aquilo que estava sendo veiculado na imprensa, mais especificamente na Folha de São Paulo e no jornal Lance, sobre o assunto. E no segundo, entrevistas com diversos atores envolvidos nesse fenômeno, entre eles torcedores organizados, acadêmicos, dirigentes esportivos e autoridades públicas”, conta.
Segundo o professor, a violência nos estádios sempre existiu, porém no início os traços eram mais espontâneos, não eram tão deliberados, tão articulados. Eram apenas reações ao jogo. A partir dos anos 70, começa uma militarização desses confrontos e nos anos 80 o uso de armas de fogo.
Entre os motivos que ajudam a alimentar a violência no futebol, há a obtenção de capital simbólico dentro de um grupo especifico, de ganhar reconhecimento e também a narrativa de condenamento da imprensa. “Aqui a tolerância é mínima. O que gera muitas vezes insatisfação por parte dos torcedores que reagem violentamente, principalmente aqueles que vão aos estádios sem essa intenção”, comenta o pesquisador. Ele cita ainda a falta de infraestrutura dos estádios, a impunidade individual e problemas com planejamento dos jogos. “O futebol não é totalmente autônomo, não é uma ilha na nossa sociedade. Uma sociedade em que você tem altíssimos índices de violência, seria surpreendente se o jogo não refletisse isso”.
O professor diz que a torcida única é uma aberração e não é solução para os problemas de violência nos estádios, “ela é absolutamente ineficaz, tanto é que na Argentina, depois de se implantar a torcida única, ampliaram-se os números de homicídios e não diminuíram”. Ele ainda comenta que a maior parte dos enfrentamentos ocorrem entre pessoas do mesmo time.
“Segundo, é uma medida totalmente injusta com a maioria dos torcedores que não vão lá para brigar, porque eu não posso ir torcer para o meu time se eu sou um torcedor pacífico e não estou lá para brigar? ”.  Lopes diz ainda que do ponto de vista pedagógico, é muito complicado, pois uma criança, o torcedor jovem que vai hoje no estádio e nesse estádio o jogo é de torcida única, a mensagem que ele recebe de cara é que esse espaço não é de tolerância, não é espaço onde o torcedor adversário é bem-vindo, onde é possível uma convivência pacífica e amistosa. “Consequentemente ele vai crescer já com o ideal de que o futebol é um espaço exclusivamente de guerra”, explica.
Como soluções para a redução destes conflitos, Felipe conta que gosta de três modelos internacionais, o belga, o alemão e o colombiano. E que eles podem servir de norte para a implementação de modelos aqui no Brasil, pois eles reconhecem o torcedor como ator legitimo dentro do universo profissional do futebol.
Para ele, os torcedores precisam primeiramente serem incluídos no processo de produção de políticas públicas dirigidas a ele próprio. “Ninguém melhor que o torcedor para saber como opera o torcedor”, comenta.
Em segundo, Lopes diz que, seguindo um pouco o modelo alemão, ele acha ser fundamental apostar fortemente no diálogo e na educação. Ele conta que a Alemanha tinha um problema seríssimo nos anos 80, onde eles jogavam bombas nos centros de refugiados e hoje são os primeiros a receber esses refugiados, porque foi feito um trabalho de investimento na educação e diálogo. “Quando eu falo desses investimentos, não digo de encontros casuais, de levar faixas para o estádio. Falo de trabalho de assistência social, são educadores que estão no dia a dia dos torcedores”, finaliza.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Programa de esportes beneficia centenas de idosos de Sorocaba

UBS Vitória Régia tem biblioteca comunitária

Número de registros de dívidas de julho deste ano é menor em relação ao mês anterior