Prisioneiros da própria mente
Foto: Marcelo Gomes
Dentre os mais variados tipos de Toc, os mais comuns são os de limpeza e organização |
Prisioneiros
da própria mente
Milhares
de pessoas são obrigadas a alterar seu modo de viver para satisfazer as
vontades de suas consciências, sendo muitas vezes obrigadas a se isolarem em
seus mundos particulares
Marcelo Gomes
Você
já imaginou conviver com uma doença que interfere e altera completamente o seu
cotidiano? Pois é, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2014 foi
apontado que cerca de quatro milhões de brasileiros sofriam com esse distúrbio:
o Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC.
De
acordo com a professora e coordenadora do curso de Psicologia da Universidade
de Sorocaba, Sylvia Fernandes Labrunetti, esse transtorno faz com que o
indivíduo tenha pensamentos obsessivos ou intrusivos, que são pensamentos que
entram na mente constantemente contra a vontade da pessoa e ela não consegue
afastá-los, e/ou rituais compulsivos impossíveis de serem controlados, não
permitindo a realização de outras tarefas do dia a dia até que esses hábitos
sejam completados.
Luiz
Paulo Silva, 29, atualmente desempregado, relata que por conta do TOC muitas
vezes deixa de sair na rua, namorar e até mesmo trabalhar. “Já fui até demitido
por faltar muito no meu emprego”, relata. Ele também diz que sempre teve a
doença, porém a primeira crise forte ocorreu somente aos 22 anos e no momento
até pensou em se suicidar.
Cada
pessoa pode apresentar tipos variáveis de obsessões e compulsões dependendo do
seu histórico de vida. A professora Sylvia conta que geralmente a pessoa
desenvolve o TOC porque ela não está conseguindo lidar com alguma coisa, então
vai desenvolvendo esses rituais como maneira de se distrair.
Como
é o caso da empresária Jana Mattos, de 34 anos, que por conta de ter morado por
um tempo sozinha em outra cidade, acabou ficando depressiva por estar longe da
família e terminava suprindo seu tempo vago em limpeza. Jana também diz que por
conta de um fim de relacionamento de 10 anos, da morte de um primo, uma tia e
da irmã mais velha, seu TOC se intensificou, e após descobrir uma traição do
marido ela teve a primeira crise de pânico. “Passava a maior parte do dia em
casa e para não pensar no meu trauma, na traição, me ocupava em arrumar a casa
para desviar o pensamento daquilo tudo”, relata.
Quem
também desenvolveu o mesmo tipo de TOC foi Márcia dos Santos, 32, que é dona de
casa e declara que desde os 7 anos de idade já apresentava indícios de possuir
o transtorno relacionado à limpeza. “Hoje em dia vivo em função disso, tomo
vários banhos por dia, limpo várias vezes a mesma coisa, evito lugares que
considero sujo e quando os frequento, entro em casa sem encostar em nada até
tomar banho”.
L.
M. conta que seu TOC, de pensamentos intrusivos e sintomas de ansiedade, evoluiu
de sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. “Eu faço o possível para
seguir minha vida, mas o cotidiano ás vezes é bem doloroso, pois não dá para
controlar os pensamentos e eles vêm justamente com coisas que eu abomino, fazer
mal a alguém que amo, por exemplo, ou a mim mesma”, diz.
Ela
ainda continua, “ele afeta minha vida no sentido de que lutar contra esses
pensamentos me desgasta muito emocionalmente e isso dá um certo desânimo e
cansa para fazer atividades normais”, L. M. completa dizendo como é difícil
conviver com a doença. “Fico repetindo 300 vezes no dia que eu não sou o que
penso, às vezes não vou a determinados locais, evito passar por onde há muita
gente, por exemplo, festas, shows, etc. Pois eles vêm com mais força e eu me
sinto culpada em estar me divertindo”.
A
Psicóloga conta que os sintomas podem deixar de existir, que algumas pessoas
podem passar por uma fase com TOC e nunca mais terem de novo e que outras não
podem não deixar de possuir os sintomas, mas conseguem conviver com eles.
“Lembro de situações da infância em que tive
TOC. Mas o desenvolvimento mesmo se deu por volta dos 11 anos de idade”, relata
Marcelo Donegá, 25, professor de Química. “O meu cotidiano é afetado por
situações onde a culpa fica proeminente no meu tempo. Apesar disso, o meu TOC
não chega a ser grave ou alterar os meus vínculos sociais”.
C.
R. descreve como o TOC alterou seu cotidiano. “O transtorno mudou meu dia a dia
e meu relacionamento, porque o TOC, como o próprio nome diz, traz o obsessivo
para perto da gente, por isso me tornei obsessiva no meu relacionamento com meu
namorado, tendo pensamentos de que ele pode estar me traindo e eu a ele também,
de alguma forma”.
“O Transtorno Obsessivo Compulsivo é um sinal
que tem alguma coisa errada com a pessoa, muitas vezes para fugir da depressão
ela começa a fazer certos rituais, e conforme a gente vai tirando isso dela,
ela começa a deprimir justamente por que era o que ela tentava esconder”, conta
a professora Sylvia, que diz que o TOC acaba se desenvolvendo por conta de
transtorno de ansiedade, por causa da depressão e outros transtornos também.
Márcia
conta que, “acabo sendo depressiva, já pensei em me matar e fico muito triste
por deixar de fazer vários programas com minha família, só para ficar no meu
mundinho limpo”.
Luiz
Paulo conta que tem depressão profunda e também é bipolar. E confessa que já se
cortou e se queimou, não para matar, mas para ver se esquecia do TOC por meio
da dor, no entanto ele diz que não funcionou.
Medicação
“Os
psiquiatras utilizam medicamentos que diminuem a ansiedade e na psicoterapia é feito
um trabalho de controle de ansiedade e de busca dessas emoções que muitas vezes
são desconhecidas pelo próprio paciente, a pessoa em terapia acaba descobrindo
qual fatores que provocaram isso e desencadearam esses rituais. Diminuindo a
ansiedade, os sintomas diminuem também”, diz a Coordenadora do curso de
Psicologia, Sylvia Fernandes Labrunetti.
Segundo
a professora Cristiane de Cássia Bergamaschi, do curso de Farmácia da Uniso, o
tratamento do TOC é feito essencialmente com antidepressivos e dentre esta
classe, os ISRS (inibidores seletivos da receptação de
serotonina): Sertralina, Fluvoxamina ou Fluoxetina, dentre outros. “Outros
medicamentos são os antidepressivos tricíclicos e benzodiazepínicos, mas
não são a melhor recomendação”.
Sobre
os efeitos colaterais ela conta, “Os efeitos adversos do ISRS são vários, mas
nem todas as pessoas terão estes efeitos, que são: sonolência, insônia,
ganho de peso, disfunção sexual, boca seca, constipação, piora dos sintomas no
início do tratamento, entre outros”.
Devido
a essas consequências, alguns dos pacientes resolvem parar com a medicação,
outros nem sequer chegam a tomá-la. L.M, diz que conhece pessoas que tomaram e
tiveram efeitos colaterais muito desagradáveis, por isso resolveu não usar
medicação. “Eu já sofro muito com meus sintomas, tenho medo de ficar viciada
nos remédios e isso mexer em outras áreas da minha vida e torná-la ainda pior”.
Ela conta que vai começar a se programar para fazer atividades físicas
regularmente e pensa em montar um negócio próprio, que lhe dê mais prazer, como
formas alternativas de amenizar os efeitos do TOC.
Márcia
diz que os remédios ajudaram a diminuir em 60% os sintomas da doença, porém ela
engravidou e decidiu parar de tomá-los pelo medo de afetar de alguma forma o
bebê. ” Depois que meu filho nasceu, fiz uma sessão de terapia, mas minha
condição financeira não permitiu continuar”.
Jana
Mattos, conta que fez uso de remédios há mais ou menos 4 anos, porém ao achar
que tinha melhorado ela parou e os sintomas voltaram com mais intensidade. Questionada
se pensa em voltar a usá-los, ela responde: “Não sei. Meus pais me pedem todos
os dias, porque dizem que eu piorei muito, principalmente em questão da minha
filha de 7 anos. Eles dizem que meu TOC fez e está fazendo ela se distanciar
cada dia mais de mim. Quando ela vem me dar um abraço eu peço para ela lavar as
mãos primeiro e minha mãe disse que não vai mais tolerar eu fazendo isso”. No
entanto ela afirma sentir satisfação ao chegar no fim do dia e ver tudo limpo, com
cheiro de alvejante. “Não sei se quero medicamento para parar com isso, talvez
eu volte pela minha filha”.
O
tratamento com medicamentos e a psicoterapia cognitiva comportamental são as
maneiras que Marcelo Donegá usa para controlar seu transtorno. “Atualmente, eu
tomo a dose máxima diariamente de Fluoxetina (80 mg). O tratamento
medicamentoso me ajuda bastante, mas tem efeitos colaterais no desempenho
sexual”, conta.
C.
R, que começou o tratamento a pouco tempo, diz que no começo sua mãe tinha medo
dos efeitos colaterais que os remédios poderiam causar e por isso se negava a
dá-los a garota. “Tenho familiares com doença psicológica que já usaram fortes
dosagens de remédios, ela achou que poderia acontecer o mesmo comigo”, finaliza.
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